
Como a nostalgia influencia a escolha de um imóvel
Esses dias, vi uma publicação sobre a aposta da SKYLRK, marca de Justin Bieber, em fones com fio e em um aparelho inspirado nos antigos MP3.À primeira vista, parece estranho.
Em um momento em que praticamente tudo é conectado, por que alguém escolheria um produto com menos tecnologia e menos funções?
A reflexão da publicação é que existe uma procura por experiências mais simples, analógicas e reais. Um desejo de usar alguma coisa que não dependa de bateria, aplicativo, atualização ou configuração.
Aquilo me fez pensar no mercado imobiliário.
A nostalgia também aparece quando escolhemos onde morar. Às vezes, de uma forma bastante evidente. Em outras, por meio de preferências que nem sempre conseguimos explicar.
A nostalgia não é apenas saudade
A nostalgia já foi vista como uma emoção relacionada apenas à tristeza e ao desejo de voltar ao passado.
As pesquisas mais recentes apresentam uma compreensão mais ampla.
Em um estudo publicado em 2006, os pesquisadores Tim Wildschut, Constantine Sedikides e seus colegas analisaram relatos de experiências nostálgicas. Eles perceberam que essas lembranças geralmente envolviam pessoas próximas, acontecimentos importantes e situações em que a própria pessoa aparecia como parte central da história.
A nostalgia também se mostrou uma emoção com elementos positivos e negativos, mas predominantemente positiva. Ela pode ser despertada em momentos de solidão, insegurança ou mudança e ajudar a fortalecer a sensação de conexão com outras pessoas.
Isso ajuda a entender por que uma casa pode despertar tanto sentimento.
Quando lembramos de um lugar importante, não lembramos somente das paredes, dos móveis ou da planta. Lembramos de quem estava conosco e da fase da vida que aconteceu ali.
Não lembramos apenas da casa
Nós já mudamos algumas vezes e percebo que, quando pensamos em uma casa anterior, raramente lembramos apenas dos ambientes.
Lembramos da rotina.
Das pessoas que estavam ali, das conversas, dos momentos em família e da maneira como aquele espaço participava da nossa vida.
Uma cozinha pode lembrar os almoços na casa dos avós. Um quintal pode trazer a memória de uma infância com mais liberdade. Uma varanda pode nos fazer pensar em conversas no final do dia.
Por isso, uma característica que parece comum para uma pessoa pode ter um significado muito maior para outra.
Não é apenas uma varanda.
É aquilo que ela representa.
A nostalgia também fala sobre o presente
A publicação dos fones com fio traz uma perspectiva interessante porque não apresenta a nostalgia somente como vontade de retornar ao passado.
Ela mostra que recuperar um objeto antigo também pode ser uma resposta a uma necessidade atual.
A pessoa pode escolher um fone com fio não apenas porque usou um parecido anos atrás, mas porque deseja algo mais simples, que cumpra uma função e não exija tantas decisões.
Acredito que algo semelhante aconteça com os imóveis.
Em uma rotina cada vez mais acelerada e cercada por telas, alguns ambientes podem ganhar importância porque representam uma maneira mais presente de viver.
Uma mesa em que a família realmente consiga se reunir.
Uma cozinha que participe da vida da casa.
Uma varanda agradável, que convide a permanecer ali.
Um espaço externo onde as crianças possam brincar.
Ambientes que não precisam impressionar, mas que ajudam a criar convivência e pausa.
Nesse caso, a nostalgia não está apenas na aparência do imóvel. Está na experiência que a pessoa deseja recuperar.
O que as pesquisas mostram sobre memória e lugar
Existe uma área da psicologia dedicada a estudar a relação entre as pessoas e os espaços em que vivem.
Em uma pesquisa com 234 adultos, os participantes foram convidados a avaliar seus lugares preferidos e descrever uma lembrança positiva relacionada a eles.
Os pesquisadores identificaram que memórias ligadas à própria história e à passagem do tempo estavam relacionadas à identidade construída com aquele lugar. Essa identidade, por sua vez, ajudava a explicar por que o ambiente era percebido como restaurador, ou seja, como um lugar capaz de proporcionar bem-estar e recuperação mental.
Outro estudo, publicado em 2024 no Journal of Environmental Psychology, investigou os fatores ligados ao apego à casa.
Entre os benefícios mais mencionados pelos participantes estavam a sensação de descanso, a privacidade, a segurança e as emoções positivas.
O vínculo com a casa também apareceu associado às experiências sociais vividas nela e à existência de espaço suficiente para as necessidades de cada pessoa.
Esses resultados mostram que nosso vínculo com uma casa não depende somente de suas características físicas.
Ele também é construído por aquilo que conseguimos viver naquele espaço.
O novo também pode despertar memória afetiva
Quando falamos em nostalgia, é fácil pensar apenas em casas antigas, móveis herdados ou elementos de outras épocas.
Mas um imóvel novo também pode despertar esse sentimento.
Ele pode ter uma arquitetura contemporânea e, ainda assim, oferecer ambientes que recuperam hábitos importantes: cozinhar junto, receber pessoas, sentar-se à mesa ou acompanhar as crianças brincando.
Isso mostra que a memória afetiva não depende de reproduzir exatamente uma casa do passado.
Muitas vezes, a pessoa não quer a mesma casa.
Ela quer reencontrar a sensação que viveu nela.
Nem sempre queremos voltar ao passado. Às vezes, queremos trazer para o presente alguma coisa que fazia bem.
Algumas preferências começam antes da visita
No trabalho com imóveis, é comum ouvir alguém dizer que gostou de um lugar sem conseguir explicar exatamente o motivo.
A planta funciona. A localização faz sentido. Os acabamentos são bons.
Mas existe algo além disso.
Pode ser a iluminação, a forma como os ambientes se conectam, o tamanho da cozinha ou a sensação ao entrar.
Duas pessoas podem visitar o mesmo imóvel e percebê-lo de maneiras completamente diferentes porque não chegam ali somente com uma lista de necessidades.
Também chegam com suas referências.
Uma característica pode despertar familiaridade em uma pessoa e não causar o mesmo efeito em outra.
Como a nostalgia interfere no consumo
A influência da nostalgia não acontece apenas na escolha de lugares.
Um estudo sobre marketing nostálgico comparou a reação das pessoas a anúncios focados no passado com anúncios focados no presente.
Os anúncios nostálgicos aumentaram a sensação de continuidade entre passado e presente. Essa percepção contribuiu para uma avaliação mais favorável das marcas e para uma intenção maior de compra. O efeito foi observado em diferentes tipos de produtos, não apenas naqueles naturalmente relacionados a lembranças.
Outra pesquisa, publicada no Journal of Consumer Research, realizou seis experimentos para entender a relação entre nostalgia e dinheiro.
Em um dos experimentos, os participantes que foram levados a sentir nostalgia demonstraram maior disposição para pagar por produtos. Os pesquisadores relacionaram esse resultado ao aumento da sensação de conexão social e a uma redução temporária da importância atribuída ao dinheiro.
Isso não significa que a nostalgia faça todas as pessoas comprarem mais ou que determine a escolha de um imóvel.
Essas pesquisas não foram realizadas especificamente no mercado imobiliário. Por isso, a relação com a compra de uma casa é uma aplicação desses conhecimentos, e não uma conclusão direta dos estudos.
Ainda assim, elas ajudam a entender por que algo familiar pode aumentar o valor que percebemos em um produto ou lugar.
Quando um imóvel se conecta a uma experiência importante, a análise deixa de ser apenas objetiva.
A memória é uma pista, não uma resposta pronta
A nostalgia pode revelar aquilo que valorizamos.
Se um quintal desperta uma lembrança boa, talvez o que realmente importe seja oferecer mais liberdade às crianças.
Se uma cozinha ampla chama atenção, talvez exista o desejo de reunir pessoas.
Se um apartamento antigo parece mais acolhedor, talvez a pessoa esteja valorizando suas proporções, sua iluminação ou a separação dos ambientes.
Entender a origem da preferência ajuda a ampliar as possibilidades.
O cuidado está em não deixar que a lembrança decida sozinha.
Por isso, a memória afetiva deve fazer parte da decisão, mas precisa conversar com a rotina, o orçamento, a localização e os planos para os próximos anos.
Talvez estejamos procurando menos excesso
O retorno dos fones com fio mostra que inovação nem sempre significa adicionar mais funções.
Às vezes, o que as pessoas procuram é justamente o contrário: menos distrações, menos etapas e uma relação mais simples com aquilo que utilizam.
Nos imóveis, isso também pode aparecer.
Nem toda família precisa de muitos ambientes, de uma grande estrutura de lazer ou de soluções que não farão parte da rotina.
Para algumas pessoas, qualidade estará em ter mais espaço. Para outras, estará em uma planta mais simples de manter, em uma boa localização ou em ambientes que realmente sejam usados.
Não existe uma única resposta.
O ponto é entender se aquilo que chama atenção no imóvel corresponde à vida que a pessoa deseja viver ou apenas a uma imagem idealizada.
O papel da escuta nessa escolha
Quando alguém procura um imóvel, geralmente começa falando de metragem, dormitórios, localização e valor.
Só que, ao longo da conversa, aparecem outras informações.
A vontade de ter uma mesa grande porque a família gosta de almoçar junta.
O desejo de uma varanda porque esse era um espaço importante em outra casa.
A procura por um ambiente mais simples porque a rotina atual já exige decisões demais.
Essas informações ajudam a compreender o que existe por trás da lista.
Para mim, essa escuta faz parte da curadoria.
Não é apenas encontrar um imóvel que reúna determinadas características. É entender o que essas características representam para aquela pessoa e avaliar como podem ser atendidas dentro da realidade atual.
Escolher também é reconhecer
Um imóvel participa de uma decisão racional, patrimonial e financeira.
Mas ele também se relaciona com nossa história.
Carregamos referências dos lugares em que crescemos, das casas em que fomos felizes e das rotinas que gostaríamos de viver novamente.
Ao mesmo tempo, estamos construindo novas memórias.
A nostalgia pode nos ajudar a reconhecer o que realmente importa. Só não deve nos impedir de perceber que uma nova fase talvez peça uma forma diferente de morar.
A melhor escolha não precisa repetir a casa do passado. Ela precisa preservar o que aquela memória ainda tem de importante para a vida de hoje.
Perguntas frequentes
A nostalgia pode influenciar a compra de um imóvel?
Pode influenciar a percepção e o valor atribuído a determinadas características. Um imóvel pode despertar familiaridade, segurança ou conexão com experiências importantes. Porém, não existem evidências suficientes para afirmar que a nostalgia, sozinha, determina uma compra imobiliária.
O que é memória afetiva em relação à casa?
É a associação entre um espaço e as experiências vividas nele. Ambientes como cozinhas, varandas e quintais podem ganhar significado pelas pessoas, pelos hábitos e pelos acontecimentos relacionados a eles.
Um imóvel novo também pode despertar nostalgia?
Sim. A nostalgia não depende apenas da idade ou da estética do imóvel. Um projeto novo pode recuperar formas de convivência, proporções ou experiências relacionadas a lugares importantes do passado.
A nostalgia pode aumentar a disposição para comprar?
Pesquisas sobre comportamento de consumo mostram que estímulos nostálgicos podem melhorar a percepção de marcas, aumentar a intenção de compra e, em algumas situações experimentais, elevar a disposição para pagar. Esses resultados não devem ser transferidos automaticamente para todos os consumidores ou para a compra de imóveis.
Como evitar uma escolha baseada apenas na emoção?
É importante entender o que despertou aquela sensação e analisar se o imóvel também funciona para a rotina atual. Localização, orçamento, manutenção, distribuição dos ambientes e planos futuros precisam fazer parte da decisão.
Aqui eu deixo uma reflexão:
Talvez a nostalgia não seja apenas vontade de voltar. Pode ser uma maneira de reconhecer aquilo que ainda queremos levar conosco.
Referências
- Publicação da Academia Brasileira de Social Media sobre nostalgia e experiências analógicas
- Wildschut, T. et al. Nostalgia: Content, Triggers, Functions. Journal of Personality and Social Psychology, 2006.
- Weingarten, E.; Wei, Z. — Nostalgia and Consumer Behavior
- Merchant, A. et al. — Nostalgic Marketing, Perceived Self-Continuity, and Consumer Decisions
- Lasaleta, J. D.; Sedikides, C.; Vohs, K. D. — Nostalgia Weakens the Desire for Money
- Ratcliffe, E.; Korpela, K. M. — Time- and Self-Related Memories Predict Restorative Perceptions of Favorite Places Via Place Identity
- Tobias-Webb, J. et al. Predicting Home Attachment Through Its Psychological Costs and Benefits: Restoration, Space, and Social Relationships. Journal of Environmental Psychology, 2024.
Por Gabriela Graciano
